GASTRONOMIA PARA UM DIA DE TRABALHO DURO

No ano de 2004 visitei alguns prédios em construção na cidade de São Paulo, e lá, pedi para que os operários me deixassem fotografar suas marmitas. 

Ainda que famintos, a maioria, pacientemente permitiu.

Era hora do almoço e, como é costume no Brasil, cada um deles, ao sair de casa de madrugada, havia trazido consigo sua marmita.

Em geral, estas refeições são preparadas por suas mulheres ou algum familiar. 

Podemos pensar que ao se levantar de madrugada para fazer a marmita do outro, essa mulher está exercendo uma comunicação muito especial com o marido (na maioria das vezes). Podemos imaginar o quanto de amor, (ou a falta) é percebido no simples ato de abrir a marmita para saber o que eu tenho hoje para comer, que cheiro tem essa comida como que esmero foi preparada e etc.

Por mais variadas que sejam os ingredientes escolhidos, é sabido que, todas elas, têm como base o feijão e o arroz, ainda que não estejam visíveis.

Existe também uma "hierarquia de conteúdo" , ou uma hierarquia da proteína mais propriamente dita.

Se um operário abre a sua diante do grupo e revela ter trazido por cima da base alguma carne, isso quer dizer que ele está em boa condição de vida. Se ele traz miúdos de frango ou porco, está razoável.

Mas, se ele traz o famoso ovo frito, significa que seu orçamento financeiro está bem apertado.

Há na montagem de cada marmita uma expectativa de que este pequeno container possa "matar a fome" de seu dono.

Há na montagem de cada marmita uma aposta em mais um dia de trabalho duro. 

Edu Simões

 

EXPOSIÇÕES:

07/2011 – CCJF - FotoRio – Rio de Janeiro

10/ 2011 –01/2012  - Maison Européenne  de La Photographie – Paris

 

English
Gastronomy for a Hard Days' Work

In 2004. I had visited a number of buildings under construction in Sao Paulo city and requested permission from workers to photograph their lunch boxes.  It was lunch time and even if they were famished, most of them agreed waiting for me to do the photos.  As is the custom in Brazil each one had left his house while it was still night carrying their own meal, generally prepared by their wives or another family member. It is apparent that there is a "hierarchy of contents", since in effect each lunchbox contains a base of rice and beans, so the presence of meat indicates a worker who has done well.  If   it also contains chicken, giblets or pork, that means it is even better off. But on the other hand if the lunchbox doesn't have anything but an egg besides the rice and beans, the popular fried egg, it constitutes a declaration of poverty.  The arrangement of each lunch holds the hope that the little container can satisfy the owner's hunger. The contents hold the certainty of a new day of hard labor.

 

Exibitions:

07/2011 – CCJF - FotoRio – Rio de Janeiro

10/ 2011 –01/2012  - Maison Européenne  de La Photographie – Paris

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