CLICHÊ / RIO

1 - As poesias, os romances, os contos e as crônicas de seis dos maiores escritores brasileiros serviram como uma espécie de roteiro geográfico para minhas andanças pela cidade do Rio de Janeiro.

Entre os anos de 2000 e 2012, atendendo à encomenda de uma publicação especializada em literatura, realizei uma série de ensaios fotográficos inspirado nas obras de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes, Machado de Assis e Clarice Lispector, todos moradores da cidade.

EDU SIMÕES

 

 

2 - CLICHÊ: ESSE AZUL DE NOTURNO MAR

 

A imagem do Cristo Redentor “visto” por trás de uma nuvem/neblina torna-se um quase símbolo para a série de imagens que Edu Simões reuniu para “exibir” como um álbum de memórias muito privada de uma cidade, o Rio de Janeiro, os seus dias, as suas glórias de “cidade maravilhosa”, os tênues limites que todo fotógrafo encontra justamente para não tornar clichê o que já é clichê: mar, pores de sol, contra planos, corpos em busca de uma perfeição que o tempo se encarregará de desfazer. Então a imagem do Cristo desaparecido nos força a olhar para dentro da cidade, num silêncio quase sagrado, numa busca cada vez mais à procura de um significado. Ali tão fluído e ao mesmo tempo quase imperceptível. O Redentor desaparecido.  

Clichê seria um ensaio imagético e líquido se não fosse literatura, desde que o fotógrafo começou a percorrer pelos cantos da cidade, durante onze anos, os passos das palavras, da poesia, das crônicas, dos romances, da vida, da arte e da morte muito além da morte de Clarice, Cony, Drummond, Rubem, Machado, Millôr. Todos na primeira pessoa, todos com nome próprio. Não conheço destino mais cortante que esse: fotografar a palavra do outro. É quase um suicídio. Também poderá se tornar uma epifania. Como traduzir “eu” para uma imagem? Como traduzir “tu” para a imagem seguinte? Como tornar visível o fluxo que sopra em “quando digo eu quero dizer tu”? Como perceber a epiderme da cidade que encontra a pele e os músculos da palavra? Mais uma vez o fotógrafo caminha e vai descobrindo sua própria linguagem, a garganta das coisas.

Onze anos se passaram e o fotógrafo ali, vendo a ponte desaparecer em diagonal futurista entre homem, espaço, concreto, musgo e passagem numa busca perplexa pela arquitetura. O roteiro geográfico que se repete e repete e repete interior e exteriormente. Por que queremos que os outros vejam o que a gente viu? Não basta ver, cada um do seu jeito? Aqui não. Nada sossega a fotografia que busca a palavra. Não há descanso na voz interior do fotógrafo quando ele se depara com o elefante que é como a página de uma missiva com rumo certo. Quando a borboleta amarela sobrevoa o passado é como literatura. A representação de cavalos rompantes é como literatura. Os bustos clássicos decadentes são como literatura. Estar num lugar à beira do tempo e tão exclusivamente poderá se tornar uma fotografia. Mesmo assim, não é a imagem que traduz a palavra. Edu Simões e os dois lados da luz diagonal. O fotógrafo ao meio.  Como Clarice, a atração pelo instante. O feminino incontido. O sujeito estarrecido. Esse modo “torto” de olhar o mundo. Ela aqui. Ele aqui. O clichê desaparecido: o Redentor paira sobre a cidade. O clichê isolado pela lente. Sim, poderá ser a imagem que traduz a palavra. Tudo contamina.

 

Diógenes Moura | Escritor e Curador de Fotografia

 

Arte1 - video 

  

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