Karimu Angola

Karimu

 

Estas imagens foram feitas durante minha terceira e mais demorada visita a Angola. Foram 15 dias de convivência, que me remeteram fortemente à primeira viagem feita fora do meu Estado, no final dos anos 70, quando visitei Salvador e o interior da Bahia.

 

O poeta angolano Arlindo Barbeitos diz que “o brasileiro que conhece a história da África conhece um pouco a sua história [...],  porque ela é uma parte do passado, também do seu país”.

 

Nós, os brasileiros, devemos visitar estas imagens como se estivéssemos diante de um espelho ancestral, ainda que enturvado pelo tempo. Da mesma forma, os angolanos, os africanos em geral e também o resto do mundo.

 

Somos, praticamente, todos filhos do tráfico negreiro e do escravagismo. Essa terrível prática transformou o mundo como um todo a partir da segunda metade do século XV e perdurou, no Brasil, até 1888. Por essa prática foram feitas inúmeras guerras. Por essa prática foram elaboradas retóricas filosóficas e religiosas.

 

 

Karimbo (no Brasil, carimbo), derivado da palavra karimu, significa “marca” em quimbundo, a principal língua falada em Angola ainda hoje, depois do português. Ka = prefixo diminutivo e rimu = marca.*

 

No contexto do tráfico negreiro, Karimbo era o ferrete oficial, feito de prata ou ferro, esquentado em brasa, com que se marcavam os negros no momento do embarque, no ato da cobrança dos direitos de exportação. Um ritual macabro de legalização e inclusão do escravagismo no sistema comercial europeu.

 

Carimbo e marca são duas palavras muito instigantes e significativas para se pensar a constituição africana na identidade do povo brasileiro, ou seja, a minha (nossa) própria identidade, por mais branca que pareça a minha (nossa) pele. Ou não.

 

Essa pele negra, marcada a ferro quente, chegou ao continente americano para se misturar à pele indígena nativa. E ambas ao europeu português, na maioria das vezes, através do estupro, indistintamente.

 

Somos todos pretos e índios.

Indistintamente.

 

 

Edu Simões

 

 

 

* Luiz Felipe de Alencastro (O Trato dos Viventes, Cia. das Letras)

English

 

 

Karimu

 

 

These images were made during my third and longest visit to Angola. The 15 days I spent  there, getting acquainced with the place, reminded me strongly of the first time I left the State where I was born, in the late 70’s, when I visited Salvador and other parts of Bahia. 

 

Arlindo Barbeitos, the Angolan poet, says that “any brazilian who knows some of Africa’s history, knows some of their own history [...], because it is part of the past of their own country.”

 

We, Brazilians, should encounter these images as if we were before a kind of ancestral mirror, even if we find it slightly bent by time. So should Angolans, Africans at large, and the rest of the world.

 

We are all, on some level, the off-spring of slavery and slave trade. This horrible practice transformed the world as a whole, beginning on the second half of the fifteenth century and lasted, in Brazil, until 1888. Inumerous wars were waged because of this. Because of this, many philosophical and religious responses were formulated and conceived.

 

Karimbo (carimbo, in Brazil), derives from the word karimu, which means “brand” in Quimbundo, the main language spoken in Angola still today, after Portuguese. Ka is a diminutive prefix, and rimu signifies mark or brand*.

 

Within the slave trade context, Karimbo was the official branding iron (made of iron or silver), with which, after being heated on hot coal, the slaves were branded as they boarded the ship, whilst exporting charges were paid. A gruesome ritual which legalized and included slavery as part of the European commerce.

 

Brand and mark are two curious and meaningful words when we think about the African contrubution to the identity of the Brazilian people, that is, mine (our) own identity, no matter how white our skin may seem. Or not.

 

This black skin, branded with hot iron, arrived in the American continent to blend and mix with the native indian skin. And to these was mixed the Portuguese European, most often by rape, until they became indistinguishable.

 

We are all blacks and indians.

Indistinguishably.

 

 

Edu Simões

 

 

 

* Luiz Felipe de Alencastro (O Trato dos Viventes, Cia. das Letras)

 

Português